
Na sua 18.ª edição, o FUSO, Festival Internacional de Videoarte de Lisboa, apresenta um programa que atravessa questões recorrentes, mas nunca esgotadas, da arte contemporânea. Entre elas, emergem reflexões sobre o território como espaço de resistência, perspetivas decoloniais que interrogam narrativas históricas e estruturas de poder persistentes, bem como a possibilidade de imaginar e construir outras formas de ver, compreender e habitar o mundo.
Entre mundos partilhados, corpos e ecologias dissidentes, reflexões sobre poder e identidade, o FUSO reafirma, uma vez mais, a imagem em movimento como um espaço de pensamento crítico onde se ensaiam outras formas de compreender, narrar e construir futuros possíveis. A 18.ª edição decorre de 25 a 29 de agosto em vários espaços de Lisboa. O FUSO Insular, na ilha de São Miguel, nos Açores, realiza-se de 30 a 31 de outubro.
Pela quinta vez, o Polo Cultural da Trienal recebe o FUSO para mais um serão de projeções ao ar livre. A sessão’ This Must Be The Place — Corpo, território e ecologias dissidentes’, com curadoria de João Mourão e Luís Silva, reúne quatro obras que exploram as relações entre corpo, território e imaginação política a partir de perspetivas queer, decoloniais e especulativas. A sessão é antecedida por uma conversa entre Cristiana Tejo e os curadores.
Entre paisagens vulcânicas, campos agrícolas, florestas e cidades, o programa propõe o território como um espaço atravessado por histórias coloniais, deslocações, regimes de poder e formas de pertença em permanente transformação. Em diálogo, as quatro obras desenham um percurso que se move das fronteiras humanas para ecologias mais amplas de relação, onde se ensaiam outras formas de vida comum.
Migranta
Manauara Clandestina
Migranta explora experiências de deslocação, identidade e pertença a partir da perspetiva de corpos em trânsito. Combinando performance, registos documentais e materiais de arquivo, o filme aborda a migração não apenas como movimento geográfico, mas também como condição política e existencial. Entre memória e testemunho, a obra revela realidades sociais e afetivas frequentemente invisibilizadas, refletindo sobre as formas como sujeitos dissidentes atravessam fronteiras e reinventam modos de habitar o território.
In Tierra Retumbante
Elyla
Inspirada pelo vulcão Masaya — ou Popogatepe, “montanha que arde” na língua mangue — a obra evoca a ligação profunda entre a terra e as culturas vivas da Nicarágua. Entre vertigem, dança e memória, Elyla revisita o clássico teatral do século XVI El Güegüense, reinterpretando os seus figurinos a partir de uma perspetiva cochón informada pela história LGBTQ+ do país. O filme reflete sobre como corpos, territórios e tradições carregam as marcas da colonialidade, mas também podem tornar-se espaços de resistência e transformação.
YWY, a androide
Isadora Neves Marques
Num presente-futuro situado no interior agrícola do Brasil, uma androide indígena conversa com um campo de milho geneticamente modificado. Num momento de intimidade, emergem questões sobre direitos do corpo, infertilidade, trabalho e monocultura. Incapaz de ouvir a voz das plantas, o espectador percebe o diálogo como um estranho monólogo. Inspirado na escrita de João Guimarães Rosa, o filme propõe uma reflexão sobre linguagem, consciência e formas de comunicação que ultrapassam os limites da percepção humana.
Pteridophilia I - V
Zheng Bo
Na série Pteridophilia, Zheng Bo explora relações de intimidade entre corpos humanos e plantas, questionando a separação moderna entre natureza e cultura. Filmadas em paisagens naturais, estas cenas imaginam formas de desejo, cuidado e interdependência entre espécies. A obra propõe uma reflexão sensorial sobre ecologia, sexualidade e coexistência, sugerindo possibilidades de relação com o mundo vegetal que desafiam normas culturais e expandem os limites do humano.
De 25 a 29 de agosto, a 18.ª edição do FUSO propõe uma reflexão sobre o território como espaço de resistência, o legado do colonialismo e novas formas de ver e viver o mundo. A curadoria de cada sessão ficou a cargo de: Pascale Cassagnau, responsável pelas coleções audiovisuais e de novos media do Centre National des Arts Plastiques do Ministério da Cultura de França; Lori Zippay, diretora emérita da Electronic Arts Intermix, em Nova Iorque; Bruno Z’Graggen, diretor-fundador da plataforma suíça Vídeo Window; e a dupla João Mourão e Luís Silva, co-diretores da Kunsthalle Lissabon.
Os vários programas convidam o público a testemunhar como a imagem em movimento é um espaço de pensamento crítico e experimentação. Como é habitual, as várias sessões do festival acontecem ao ar livre, em cinco espaços da cidade: DUPLACENA 77, Museu da Marioneta, Museu da Polícia, Polo Cultural da Trienal e MAAT Central.
Criado em 2009, o FUSO é o único festival português inteiramente dedicado à videoarte, apresentando anualmente uma programação nacional e internacional em Lisboa e, através do FUSO Insular, na ilha de São Miguel, Açores. A sua programação reflete a diversidade de linguagens que caracterizam a videoarte enquanto medium particularmente permeável ao cruzamento entre artes visuais, performance, dança, teatro, cinema e literatura.