Human Entities 2026
Paris Marx
Peter Bancel
Ana Meisel
A IA tornou-se uma máquina cultural. A sua manifestação física mais evidente, o centro de dados, ergue-se como um monumento à consolidação de uma já extrema concentração de poder corporativo. Há quem chame a isto soberania privatizada – um tema recorrente do Human Entities, porque a situação está cada vez pior.
Por um lado, a janela para imaginar outros mundos possíveis estreita-se.
Mas o sistema não é nem totalizante nem estável. Não nos pode impedir de construir ilhas de sanidade, de sonhar com a boa vida ou até de nos divertirmos. Nem implica a morte do afeto. Pelo contrário, mesmo à medida que a presença cultural da IA se intensifica – e talvez precisamente por isso – a experiência estética continuará a florescer, sustentada por práticas locais e micro-cenas que trabalham para objetivos diferentes.
Quanto ao nosso segundo tema recorrente, a interconectividade, há mais espaço para otimismo. A modernidade parece estar a ceder; muitos dos pressupostos que sustentam a sua visão científica do mundo estão a ser questionados.
Embora os desafios conceptuais sejam consideráveis, podemos começar a ir além da ideia herdada de uma única causalidade fixa projetada sobre o mundo e, em vez disso, atentar a um campo vivo de relações no qual organismos e ambientes coparticipam através de trocas de sentimentos e experiência.
Aqui, a janela para imaginar outros mundos possíveis expande-se.
Terça, 5 de maio 2026, 19.00
Conversa com Ratzo
Gabriel Abrantes
Gabriel Abrantes conversa com Ratzo, a ratazana badalhoca, sobre a era pós-merdificação.
A conversa será em língua inglesa e seguida de uma sessão de Q&A onde o público pode fazer perguntas também ao Ratzo.
Veja o Ratzo aqui.
Gabriel Abrantes (n. 1984, Carolina do Norte, EUA) é realizador e artista visual. Os seus filmes estrearam em competição no Festival de Cannes, na Berlinale, em Veneza e em Locarno. Em 2018, Diamantino, co-realizado com Daniel Schmidt, venceu o Grande Prémio da Semaine de la Critique em Cannes. Expôs na Tate Britain, Palais de Tokyo, MAAT, Serralves.
Quarta, 20 de maio 2026, 18.30
Recuperar a soberania digital
Paris Marx
Ao longo de várias décadas, permitimo-nos uma profunda dependência das tecnologias, plataformas e serviços digitais dos EUA. A aliança entre Silicon Valley e a administração Trump mostra-nos como essa escolha não apenas nos tornou vulneráveis, como fortalece agora forças antidemocráticas e autoritárias. Paris Marx irá debater como nos tornámos tão dependentes da tecnologia norte-americana e como seria traçar um caminho diferente. Afastarmo-nos da tecnologia norte-americana não será fácil, mas é uma oportunidade para reimaginar o modo como utilizamos a tecnologia digital para o bem comum.
Paris Marx é um tech critic canadiano. É criador do premiado podcast «Tech Won’t Save Us» e dá palestras em todo o mundo sobre a política da tecnologia. Paris é autor de «Road to Nowhere» e o seu próximo livro, «Hyperscale», será lançado ainda este ano.
Quarta, 27 de maio 2026, 18.30
Para além dos sentidos: a ciência e o mistério do fenómenos psíquicos
Peter Bancel
As anomalias – aquilo que não se enquadra na nossa visão do mundo – são muitas vezes o ponto de partida para novas descobertas. Como afirmou o físico Richard Feynman: “É aquilo que não se encaixa que é mais interessante“. Um dos principais desafios da ciência atual é compreender a consciência. As teorias são abundantes, há progressos a serem feitos, mas não existe consenso nem mesmo um caminho claro a seguir. Nestes casos, as anomalias podem fornecer uma orientação crucial para a investigação. Nesta conversa, analisaremos a anomalia dos fenómenos psíquicos – capacidades aparentes da consciência, como a telepatia e a precognição – e exploraremos as evidências científicas. Se a realidade dos fenómenos psíquicos for comprovada, poderá servir como um indicador para compreender como e por que razão experienciamos a experiência – o cerne da consciência humana. Consideraremos também o que isso implicaria para a ciência de forma mais ampla e como nos convida a compreender o mundo.
Peter Bancel é investigador sénior no Institut Métapsychique International (IMI) em Paris e investigador visitante no Institute of Noetic Sciences, Califórnia. No início dos anos 2000, colaborou com o Global Consciousness Project, sediado em Princeton (EUA), antes de ingressar no IMI em 2010. Paralelamente ao seu trabalho científico, é praticante budista de longa data e professor de meditação, com um interesse profundo pela consciência que faz a ponte entre as tradições contemplativas e a investigação empírica. Desde que ingressou no IMI, tem-se concentrado na forma como os fenómenos psíquicos – frequentemente chamados «psi» – podem ser estudados utilizando os métodos da ciência convencional. O seu trabalho explora a precognição, o desenho experimental em estudos psi e possíveis ligações com a física quântica. É doutorado em Física Experimental pela Universidade da Pensilvânia. Após investigação de pós-doutoramento na IBM, mudou-se para França, onde trabalhou no CNRS em Paris e, mais tarde, no Institut des Matériaux Jean Rouxel da Universidade de Nantes.
Terça, 2 de junho 2026, 18.30
Permacomputing: pequenas entradas para um amplo coletivo
Ana Meisel
Permacomputing aplica a permacultura — um modelo de design para o cuidado da Terra, das pessoas e da partilha justa — à computação. Centra-se na reparação e analisa os impactos abrangentes da tecnologia através do olhar da ecologia, convivialidade e política anticapitalista. Comunidades dedicadas a esta ética continuam a formar-se em todo o mundo e a pô-la em prática através da arte, do apoio mútuo e de guias práticos para o decrescimento tecnológico e sistemas sustentáveis. O objetivo é enfraquecer os poderes tecnológicos dominantes que canalizam as nossas emoções para dados, com interações totalmente insensíveis que nos conduzem a um mundo de alienação repleto de danos ambientais. Este atrito significativo cria uma nova politização devido à ubiquidade e polarização da tecnologia. As práticas computacionais idiossincráticas e minimalistas do permacomputing exigem lentidão, reflexão e partilha comunitária de conhecimento. Isto aprofunda as relações e a sociabilidade e, consequentemente, abre espaços para a política e consciência de classe a partir de fundamentos ecofeministas, decoloniais e comunitários.
Ana Meisel é uma programadora web e artista polaco-alemã radicada em Londres, no Reino Unido. O seu trabalho centra-se na computação com base histórica, abordada através da perspetiva da teoria crítica, da responsabilidade ecológica, do pensamento sistémico e da organização comunitária. Faz parte do Superkilogirls, um coletivo que explora as críticas feministas à computação e à automação, gere a External Pages, uma galeria de arte na Internet, e coorganiza o Permacomputing Club de Londres. O seu trabalho tem sido apresentado em diversos contextos, como o Cyberfeminism Index e o San Jose Museum of Art. Os seus interesses incluem movimentos de resistência tecnológica, cultura tecnológica DIY e o Bloco de Leste.
