Puxa palavra com Javier Peña Ibáñez
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Estará na Trienal para apresentar o livro ‘Concéntrico: Urban Innovation Laboratory’ que olha para essas experiências à procura de um fio comum. Uma década depois, criando relações e abrindo possibilidades, o Concéntrico tem saudades do futuro.
Uma década depois da primeira edição de Concéntrico, como descreverias o papel transformador da arquitetura e do design no contexto atual?
Com o Concéntrico aprendemos que transformar a cidade também significa mudar quem participa na sua construção e as ideias que nela encontram espaço. A arquitetura e o design permitem reunir pessoas que normalmente não trabalham juntas e dar uma forma concreta a essa conversa. O que surge desse encontro pode questionar uma decisão urbana, recuperar um lugar esquecido ou introduzir um uso que ninguém tinha considerado.
Trabalhar a partir do temporário dá-nos liberdade para explorar essas possibilidades sem termos de resolver antecipadamente como serão para sempre. As propostas constroem-se, usam-se e discutem-se; a cidadania intervém no seu significado. Logroño permite-nos manter essa investigação ao longo do tempo, e o intercâmbio com autorias de outros contextos expande as perguntas. A sua capacidade transformadora está em fazer com que outras formas de cidade deixem de ser uma hipótese e passem a fazer parte da nossa experiência.
Este livro reúne dez anos de intervenções, reflexões e aprendizagens sobre o espaço público. Como se faz um livro — um objeto, algo que permanece como legado — a partir de um material que, em princípio, é efémero?
O livro é uma forma de traduzir a investigação e de construir uma visão do todo. Durante o festival, cada projeto responde a um lugar, a uma conversa e a circunstâncias concretas. Ao revisitar dez anos de trabalho com o Nick Axel, conseguimos ler essas experiências em relação umas às outras e reconhecer ideias que atravessam projetos com autorias e de edições muito diferentes. Organizar o livro em sete capítulos, em vez de seguir uma cronologia, permite passar da história de um festival a uma discussão sobre a cidade.
O efémero tem uma duração material, mas os seus efeitos não terminam necessariamente com a desmontagem. Ficam experiências, conhecimentos e outras formas de entender um lugar. O livro faz com que essa aprendizagem possa circular e encontrar-se com outros olhares. Procura estabelecer novas relações e explorar como aquilo que aprendemos pode ser empregue noutros lugares e cidades, não como um modelo que se exporta, mas como uma investigação que se transforma ao entrar em contacto com outras realidades.
Concéntrico afirma-se como um laboratório de inovação urbana. Há também uma ênfase clara nas ideias de coletivo e de coexistência. O que podemos esperar das próximas edições do festival?
Concéntrico nasceu do desejo de conversar e trabalhar com outros arquitetos, artistas e designers. Hoje essa conversa envolve uma rede muito mais ampla de pessoas, comunidades e instituições. Queremos que as próximas edições aprofundem essa forma de trabalhar: que o coletivo esteja na forma como os projetos se concebem, se constroem e se vivem, e não apenas no discurso que os acompanha.
Interessa-nos dar continuidade às investigações, trabalhar com outras durações e estabelecer relações com novos lugares e cidades. Logroño continua a ser o lugar onde podemos testar ideias à escala real e aprender com o que acontece quando essas ideias entram na vida quotidiana. Abrir esse trabalho a outros contextos permite também rever as nossas próprias certezas. Não procuramos que Concéntrico seja igual em todo o lado, mas sim descobrir o que pode vir a ser com outros. É um laboratório e há ainda muitos mundos possíveis por explorar.
Javier Peña Ibáñez é arquiteto, curador e educador. É o fundador e diretor do Concéntrico, uma plataforma internacional que explora novas relações entre a arquitetura, o design e o espaço público. É também o diretor artístico do TAC! Festival de Arquitetura Urbana, promovido pelo Ministério da Habitação e Agenda Urbana de Espanha e pela Fundación Arquia, e curador do programa Public Design Commissions para o Design Doha 2026. É coeditor de Concéntrico: Urban Innovation Laboratory (Park Books). O seu trabalho centra-se na arquitetura e na inovação cultural, com um interesse particular no design temporário como ferramenta de transformação do espaço coletivo.
