
Pela quarta vez, o festival português de videoarte toma conta do pátio do pólo cultural da Trienal para mais um serão ao ar livre. A noite arranca com uma conversa entre o curador da sessão noturna, Greg de Cuir Jr., e a curadora Cristiana Tejo. Segue-se a projecção de obras do Instituto Kinopravda (Sérvia).
Igor Bošnjak, Bosnia & Herzegovina
The Situationist, 2007, 7'
Uma homenagem a Guy Debord e ao Movimento Internacional Situacionista.
Armando Lulaj, Albânia
Breaking Stones, 2017, 11'
Noite. Uma zona suburbana da cidade de Tirana. Um homem vem de uma rua escura segurando o que parece ser uma pedra grande. Enquanto caminha bate repetidamente (com) a pedra no chão até que os pedaços ficam suficientemente pequenos para poderem ser facilmente apanhados por outras pessoas e, presumivelmente, serem usados na próxima acção de protesto. Este homem desaparece na escuridão. Talvez numa outra rua esteja um homem a repetir a mesma acção.
Doplgenger (Isidora Ilić + Boško Prostran), Sérvia
Fragments Untitled #6, 2022, 6’
As duas melhores equipes de futebol da Jugoslávia encontraram-se no Estádio Maksimir, em Zagreb, a 13 de maio de 1990. A partida nunca se realizou. Fragments Untitled #6 disseca as imagens do evento na comunicação social. O vídeo faz parte de uma série continuada de trabalhos que investigam a política das imagens nos mass media que estiveram na origem da criação das narrativas históricas da Jugoslávia no período de 1980-2000.
Igor Simić, Sérvia
Cost-Benefit-Love, 2014, 10’
Dois amantes, uma análise custo-benefício, e “O Beijo” de Rodin. Uma exploração do conceito de Amor Líquido, de Zygmunt Bauman.
Vladislav Knežević, Croácia/Japão
End Cycle, 2017, 18’
Mobilidade muito reduzida e um corpo físico em tensão, numa fábrica abandonada. Num espaço vazio, despojado de máquinas, um corpo humano está sintonizado com o ritmo de uma pulsação arcaica. Movimentos lentos e hipercontrolados tentam manter a coesão, mas a decomposição das camadas superiores indica o processo imparável de desmaterialização. As posições do corpo apontam para uma memória coletiva da estrutura física das coisas, que vai desaparecendo no frio intenso do cálculo. A expressão traumática da corporalidade é marcada por um movimento circular e imparável em direção à conversão do mundo material em dados. O som no vídeo é, maioritariamente, o resultado de intervenções na gravação do som da respiração do artista durante a performance, sem a presença da audiência.Coreografia e performance de Takao Kawaguchi. Co-produzido pela Saison Foundation, Japão.
"Esta selecção, feita especificamente para o FUSO 2025, dá especial atenção ao corpo e ao movimento em espaços naturais, urbanos e pós-industriais. São corpos políticos em movimento, em êxtase, ou em desenvolvimento interrompido ou frustrado. A linguagem é praticamente inexistente nestes vídeos, uma vez que se mostra ineficaz como método para libertar esses corpos, ou mesmo para desvendar as suas situações sociais. O discurso, quando surge, é repentino e fugaz, aparece como fragmentos abstratos ouvidos por um público ausente através de um sistema de som de PA. Desdobra-se como um fluxo de consciência que captura um estado de ser maníaco-depressivo, neste mundo solitário e hipertransacional. Das pedras ao desporto, dos smartphones à decadência estrutural, estas obras e estes artistas interagem com os materiais e as questões que condicionam a realidade. Ou, como escreveu a certa altura o poeta Nas: "A vida é definida para além dos muros da inteligência. ""
*Greg de Cuir Jr é co-fundador e director artístico do Instituto Kinopravda em Belgrado.